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Imagem: António Gonçalves

Jorge Velhote. Âmago. (Edições sem nome, 2018)

12

É nocturna a paciência

incendiando a noite e frágil.

Nos teus pés crescem ravinas e raízes –

sombras enterram na tua pele

animais indecifráveis.

Rasgas com os dedos o céu

e procuras como nos versos

uma nuvem um pouco de vento

o lugar onde começa o destino

da água.

 

13

Há uma árvore. Ignoras o seu nome

ou o vento que faísca nos seus ramos

como um braço contra a morte.

Há a água. Subitamente despedindo

contra o vento os caminhos

o canto altíssimo das aves.

E nos teus pulmões germina uma palavra

como um testamento – uma página

cerzindo a fotografia

de uma bala.

 

14

O peso de uma pedra que não sabes

medir, a quantidade de luz

que compõe o granulado

de uma sombra, a temperatura

do frio que se estende no teu braço –

e tudo isto como se a paz

imensa fosse

o rio inaudível que regressa

quando as luzes se apagam

ou a névoa matinal

em que tropeças os dedos

enchendo a boca

de terra.


12

Es nocturna la paciencia

incendiando la noche y frágil.

En tus pies crecen torrentes y raíces –

sombras entierran en tu piel

animales indescifrables.

Rasgas con los dedos el cielo

y buscas como en los versos

una nube un poco de viento

el lugar donde comienza el destino

del agua.

 

13

Hay un árbol. Ignoras su nombre

o el viento que chispea en sus ramas

como un brazo contra la muerte.

Está el agua. Súbitamente despidiendo

contra el viento los caminos

un canto altísimo de aves.

Y en tus pulmones germina una palabra

como un testamento – una página

zurciendo la fotografía

de una bala.

14

El peso de una piedra que no sabes

medir, la cantidad de luz

que compone el granulado

de una sombra, la temperatura

del frío que se extiende en tu brazo –

y todo esto como si la paz

inmensa fuese

el río inaudible que regresa

cuando las luces se apagan

o la niebla matinal

que tropieza en los dedos

llenando la boca

de tierra.


12

É nocturna a paciencia

incendiando a noite e fráxil.

Nos teus pés medran regatos e raíces –

sombras enterran na túa pel

animais indescifrábeis.

Esgazas cos dedos o ceo

e procuras coma nos versos

unha nube un pouco de vento

o lugar onde comeza o destino

da auga.

 

13

Hai unha árbore. Ignoras o seu nome

ou o vento que faísca nas súas ponlas

coma un brazo contra a morte.

Está a auga. Subitamente despedindo

contra o vento os camiños

o canto altísimo das aves.

E nos teus pulmóns xermola unha palabra

coma un testamento – unha páxina

zurcindo a fotografía

dunha bala.

14

O peso dunha pedra que non sabes

medir, a cantidade de luz

que compón o granulado

dunha sombra, a temperatura

do frío que se estende no teu brazo –

e todo isto como se a paz

inmensa fose

o rio inaudíbel que regresa

cando as luces se apagan

ou a névoa matinal

en que tropezas cos dedos

enchendo a boca

de terra.

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