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Imagem: Carolee Schneemann

Andreia C. Faria. Tão bela como qualquer rapaz. (Língua Morta, 2017; incluído em Alegria para o fim do mundo, elogio da sombra, 2019)

JOANA D’ARC


Decerto guardou a pétala do primeiro sangue
entre a malha das calças
e o dorso do cavalo branco. Imagino-a
sofrendo o golpe e queixando-se dos solavancos,
de um relento negro, um punhado
de amoras que esmagou sem querer.

Imagino-a na margem de um riacho
lavando as coxas ruivas,
desenfaixando o peito,
afagando a penugem do queixo
para engrossá-la
e cuspir aos pés dos homens no sobrado

e à noite, sozinha, raspá-lo,
reunindo as lascas de madeira para erguer
uma cabeça de rapaz, uma fronde suada
e feroz que lhe espreite os pensamentos
e lhe sopre pela gola do camisolão
e se deixe despentear, fotografar, ser visto
nos bares, um rapaz cujo rosto rejuvenesça
após um desgosto de amor.

Ou nos dias livres imagino-a
abrindo as persianas para rasgar
olhos ao poente, testemunha do seu corpo,
de como se feriu no voo e soube
suturar-se
como fazem os velhos aos seus pombos-correio.

JUANA DE ARCO


Seguro que guardó el pétalo de la primera sangre
entre la marca en los pantalones
y el dorso del caballo blanco. La imagino
sufriendo el golpe y quejándose de las sacudidas,
de un relente negro, un puñado
de moras que aplastó sin querer.

La imagino a la vera de un arroyo
lavando las ingles bermejas,
soltando la faja del pecho,
atusando la pelusa del mentón
para espesarla
y escupir a los pies de los hombres en la solana

y por la noche, sola, rasparlo,
reuniendo astillas de madera para erigir
una cabeza de chico, una fronde sudada
y feroz que escudriñe sus pensamientos
y le sople por el cuello del camisón
y se deje despeinar, fotografiar, ser visto
en los bares, un chico cuyo rostro rejuvenezca
tras un disgusto de amor.

O en los días libres la imagino
abriendo las persianas para rasgar
ojos al poniente, testigo de su cuerpo,
de cómo se hirió en el vuelo y supo
suturarse
como hacen los viejos a sus palomas mensajeras.

XOANA DE ARCO


Certamente gardou a pétala do primeiro sangue
entre a mancha dos pantalóns
e o dorso do cabalo branco. Imaxínoa
sufrindo o golpe e queixándose dos chimpos,
dun relento negro, unha puñada
de amoras que esmagou sen querer.

Imaxínoa na marxe dun regato
lavando as coxas roibas,
desenfaixando o peito,
afagando a penuxe do queixo
para engrosala
e cuspir aos pés dos homes no sobrado

e á noite, soa, raspalo,
reunindo as lascas de madeira para erguer
unha cabeza de rapaz, unha fronde suada
e feroz que lle espreite os pensamentos
e lle sopre polo colo do camisón
e se deixe despeitear, fotografar, ser visto
nos bares, un rapaz cuxo rostro rexuveneza
após un desgusto de amor.

Ou nos dias libres imaxínoa
abrindo as persianas para esgazar
ollos ao poñente, testemuña do seu corpo,
de como se feriu no voo e soubo
suturarse
como fan os vellos ás súas pombas mensaxeiras.

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