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Foto: Alexander Kosolapov

Tiago Patrício. Turismo de Guerra. Artefacto, 2014

TURISMO DE GUERRA

andamos ao sol durante quase toda a tarde

tiramos a camisola ficamos em roupa interior

mostramos o corpo e expomos as últimas

habilidades do ginásio ou da privação de alimentos

.

deitamo-nos na relva fresca

lemos livros uns dos outros

ou fazemos palavras cruzadas

.

a realidade pode ser vagamente um jardim

numa cidade onde as prateleiras estão cheias

e nos oferecem de comer por pouco mais

do que um cartão com o nosso nome

escrito com palavras em relevo

.

alugamos um barco para andar no rio

tiramos muitas fotografias consecutivas

pedimos a alguém para nos enquadrar

com a ponte lá ao fundo a suportar

mais um beijo ou o polegar levantado

.

tudo corre pelo melhor

milhares de pessoas com ideias

e línguas inconciliáveis

cruzam-se durante a hora das compras

.

prendas para o pai recordações de guerra

ilustrações totalitárias para o escritório

um postal da polícia para a secretária

e outro para mostrar aos colegas

.

experimentamos casacos

amuletos e boinas de exércitos invasores

precisamos de objectos de compensação

e alguém se ri para nós do outro extremo do mundo

.

fazemos isto em vez de nos matarmos uns aos outros

.

entramos em livrarias mas estamos indecisos

não sabemos ao certo em que tempo vivemos

nem o que se escreverá deste início do século

queremos tomar posse de alguma literatura ilustrada

depois pensamos em música instrumental

e em como podemos ouvir tudo aquilo

que nos apetece em qualquer lugar

.

no entanto queixamo-nos

.

tiramos outra fotografia

o flash dispara várias vezes

e sem qualquer desperdício

temos uma boa máquina

que nos permite ver o resultado

e repetir ou dizer que para a próxima

faremos de outro modo

há alguém que faz essas máquinas

serem de boa qualidade e muito baratas

para as podermos comprar

e ainda nos sobra dinheiro para estas viagens

.

jantamos cedo conforme os hábitos locais

ou escolhemos um bar flutuante

para um passeio ao longo do rio

.

como é doce a noite no meio do continente

e a vida ainda nos parece tão leve

.

fazemos chamadas internacionais

e podemos falar durante vários minutos

sem comprometer o orçamento anual

.

mais um ligeiro abraço

e uma última fotografia

passam raparigas a toda a hora

a condizer com as luzes

e pensamos como são belas vistas desde aqui

.

entramos numa das maiores discotecas do mundo

e bebemos tudo aquilo que nos oferecem

no final adiantamo-nos para pagar

há qualquer coisa de provocador

em saldar dívidas com dinheiro dos outros

.

deixamos uma gratificação

e o empregado segura-nos a porta

mas ao voltarmos à rua

reparamos que a chuva

poderá não ser a única causa

para a escorrência que invade as ruas


TURISMO DE GUERRA

andamos al sol durante casi toda la tarde

nos sacamos el jersey quedamos en ropa interior

mostramos el cuerpo y exponemos las últimas

habilidades del gimnasio o de la privación de alimentos

.

nos acostamos en el césped fresco

leemos libros los unos de los otros

o hacemos crucigramas

.

la realidad puede ser vagamente un jardín

en una ciudad donde los estantes están llenos

y nos ofrecen comida por poco más

que una tarjeta con nuestro nombre

escrito con palabras en relieve

.

alquilamos un barco para andar por el río

sacamos muchas fotografías consecutivas

pedimos a alguien que nos encuadre

con el puente allí al fondo soportando

otro beso más o el pulgar levantado

.

todo va sobre ruedas

miles de personas con ideas

y lenguas inconciliables

se cruzan durante la hora de las compras

.

regalos para el padre recuerdos de guerra

ilustraciones totalitarias para el despacho

una postal de la policía para el escritorio

y otra para enseñar a los compañeros

.

probamos chaquetas

amuletos y boinas de ejércitos invasores

necesitamos objetos de compensación

y alguien se ríe de nosotros desde el otro extremo do mundo

.

hacemos esto en vez de matarnos los unos a los otros

.

entramos en librerías pero estamos indecisos

no sabemos con seguridad en qué tiempo vivimos

ni qué se escribirá de este inicio de siglo

queremos tomar posesión de alguna literatura ilustrada

después pensamos en música instrumental

y en cómo podemos escuchar todo aquello

que nos apetece en cualquier lugar

.

no obstante, nos quejamos

.

sacamos otra fotografía

el flash dispara varias veces

y sin cualquier desperdicio

tenemos una buena cámara

que nos permite ver el resultado

y repetir o decir que para la próxima

haremos de otro modo

hay alguien que hace que esas cámaras

sean de buena calidad y muy baratas

para que las podamos comprar

y aún nos sobre dinero para estos viajes

.

cenamos temprano conforme a los hábitos locales

o escogemos un bar flotante

para un paseo a lo largo del río

.

cómo es dulce la noche en medio del continente

y la vida aún nos parece tan leve

.

hacemos llamadas internacionales

y podemos hablar durante varios minutos

sin comprometer el presupuesto anual

.

otro ligero abrazo

y una última fotografía

pasan jovencitas todo el tiempo

a juego con las luces

y pensamos cuán bellas son vistas desde aquí

.

entramos en una de las mayores discotecas del mundo

y bebemos todo aquello que nos ofrecen

al final nos adelantamos para pagar

hay un algo de provocador

en saldar deudas con dinero de los otros

.

dejamos una propina

y el empleado nos sujeta la puerta

pero al volver a la calle

nos damos cuenta de que la lluvia

quizás no sea la única causa

de la escorrentía que invade las calles


TURISMO DE GUERRA

andamos ao sol durante case toda a tarde

quitamos o xersei quedamos en roupa interior

mostramos o corpo e expomos as últimas

habilidades do ximnasio ou da privación de alimentos

.

deitámonos no céspede fresco

lemos libros uns dos outros

ou facemos palabras cruzadas

.

a realidade pode ser vagamente un xardín

nunha cidade onde os andeis están cheos

e nos ofrecen de comer por pouco mais

do que unha tarxeta co noso nome

escrito con palabras en relevo

.

alugamos un barco para andar polo río

quitamos moitas fotografías consecutivas

pedimos a alguén para nos encadrar

coa ponte alá ao fondo a soportar

outro bico ou o polgar levantado

.

todo vai de marabilla

milleiros de persoas con ideas

e linguas inconciliábeis

crúzanse durante a hora das compras

.

agasallos para o pai lembranzas de guerra

ilustracións totalitarias para o despacho

unha postal da policía para o escritorio

e outra para mostrar aos compañeiros

.

probamos casacas

amuletos e boinas de exércitos invasores

precisamos de obxectos de compensación

e alguén se ri para nós dende o outro extremo do mundo

.

facemos isto en vez de matármonos os uns aos outros

.

entramos en librarías mais estamos indecisos

non sabemos con certeza en que tempo vivimos

nin que se escribirá deste comezo do século

queremos tomar posesión dalgunha literatura ilustrada

despois pensamos en música instrumental

e en como podemos ouvir todo aquilo

que nos apetece en calquera lugar

.

emporiso, queixámomos

.

quitamos outra fotografía

o flash dispara varias veces

e sen calquera desperdicio

temos unha boa cámara

que nos permite ver o resultado

e repetir ou dicir que para a próxima

faremos doutro modo

hai alguén que fai que esas cámaras

sexan de boa calidade e moi baratas

para que as podamos mercar

e aínda nos sobra diñeiro para estas viaxes

.

ceamos cedo conforme aos hábitos locais

ou escollemos un bar flotante

para un paseo ao longo do río

.

como é doce a noite no medio do continente

e a vida aínda nos parece tan leve

.

facemos chamadas internacionais

e podemos falar durante varios minutos

sen comprometer o orzamento anual

.

outro lixeiro abrazo

e unha última fotografía

pasan raparigas a toda hora

a xogo coas luces

e pensamos como son de belas vistas desde aquí

.

entramos nunha das maiores discotecas do mundo

e bebemos todo aquilo que nos ofrecen

ao final adiantámonos para pagar

hai calquera cousa de provocador

en saldar débedas co diñeiro dos outros

.

deixamos unha adealla

e o empregado suxéitanos a porta

mais ao voltarmos á rúa

reparamos que a choiva

poida non ser a única causa

para a escorrentía que invade as rúas

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