Home

Foto de Craig McDean

HIPERMODERNIDADE

Porque será que justamente ao começar a rodagem o corpo deve estar preparado para um acto de extrema liberdade, rejuvenescido celularmente, flexível e harmónico através da absorção muscular de ozono e oxigénio puro?

Porque o porno é o acto de uma nova religião, de uma religião hiper-realista, a da intimidade a seduzir-se a si mesma, devorando-se no seu próprio espectáculo.

O céu, por cima de nós, estava pintado de vermelho, como aqueles lábios da sérieSmoker de Tom Welsemann.

E a autoestrada parecia a imagem filmada de uma autoestrada quando os amantes se escapam por ela para um encontro clandestino num hotel dos subúrbios.

O real confundia-se com o consumo do real.

E a felicidade com essa aventura de passar pelas coisas, enquanto todas as fantasias concebidas pelas estratégias comerciais disparavam dentro de nós.

Através dos painéis electrónicos do Passeio Marítimo os desenhadores turísticos tratavam de seduzir-nos com um slogan zen extraído de algum link do ciberespaço:

We shall be your disappearing act. Seremos o seu acto favorito de desaparecimento.

O mar já não era o mar mas a serigrafia alucinada de uma imagem de massas.

E a tua beleza tinha essa forma de miúda vulnerável que aparece em alguns anúncios publicitários.

Na realidade sermos dois desconhecidos tornava-nos livres porque a intimidade não podia perturbar-nos, porque nenhum sentimento poderia alterar o nosso mundo.

Esse era o nosso equilíbrio, o nosso lugar de harmonia.

Para além do tráfego passava demasiado depressa e as lojas de roupa, algumas com iluminação nocturna, eram uma sequência alucinada de copyrights.

Não sei se fui eu ou uma parte de mim que subiu ao teu apartamento.

Não sei se fui eu ou tu quem se sentiu mais só,

Quem disse que o porno tinha sido o nosso refúgio e a nossa companhia porque criou em nós a ilusão de experimentar pelo menos visualmente as coisas, de encontrar um espaço onde ser felizes de novo.

Despimo-nos e estivemos a contemplar cidade, sem nos tocarmos.

Nas montras das lojas dos chineses as câmaras de vigilância deviam registar a passagem dos últimos banhistas.

Mas nos vidros do nossa baranda não se registou a presença de nenhum sentimento.

Aproximei-me do teu cabelo e respirei. Sussurrei-te: Finge que me amas.

Mantiveste-te em silêncio durante muito tempo, talvez porque nem sequer sabíamos com certeza que era isso de amor.

As nossas vidas vivíamo-las demasiado velozmente.

As nossas emoções apenas eram emoções quando desfrutávamos da superfície das coisas.

A nossa ternura apenas era parecida com a ternura quando compreendíamos a leve intensidade com que se mostrava o mundo.

Um avião deixava um rasto acrílico no horizonte do padrão das cuecas que a brisa movia no estendal.

Acariciei as tuas nádegas e deixei que os meus dedos se perdessem nas pregas do teu ânus e da tua vagina.

Em nenhum momento olhei para o teu rosto, nem sequer quis pronunciar o teu nome.

Em nenhum momento me preocupei quem eras nem como a vida nos tinha levado até ali.

Éramos dois seres aos quais envolvia o espetáculo do seu próprio desejo.


 

HIPERMODERNIDAD

¿Por qué justo al empezar el rodaje el cuerpo debe estar listo para un acto de extrema libertad, rejuvenecido celularmente, flexible y armónico tras la absorción muscular de ozono y oxígeno puro?

Porque el porno es el acto de una nueva religión, de una religión hiperreal, la de la intimidad seduciéndose a sí misma, devorándose en su propio espectáculo.

El cielo, encima de nosotros, estaba pintado de rojo, como aquellos labios de la serie Smoker de Tom Welsemann.

Y la autopista parecía la imagen filmada de una autopista cuando los amantes se escapan por ella a una cita clandestina en un hotel de los suburbios.

Lo real se confundía con el consumo de lo real.

Y la felicidad con esa aventura de pasar por las cosas, mientras todas las fantasías diseñadas por las estrategias comerciales se disparaban dentro de nosotros.

A través de los paneles electrónicos del Paseo Marítimo los diseñadores turísticos trataban de seducirnos con un eslogan zen extraído de algún link del ciberespacio:

We shall be your disappearing act. Seremos su acto favorito de desaparición.

El mar ya no era el mar sino la serigrafía alucinada de una imagen de masas.

Y tu belleza tenía esa forma de chica vulnerable que aparece en algunos anuncios publicitarios.

En realidad ser dos desconocidos nos hacía libres porque la intimidad no podía perturbarnos, porque ningún sentimiento podía cambiar nuestro mundo.

Ese era nuestro equilibrio, nuestro lugar de armonía.

Más allá del tráfico pasaba demasiado deprisa y las tiendas de ropa, algunas con la iluminación nocturna, eran una secuencia alucinada de copyrights.

No sé si fui yo o una parte de mí quien subió hasta tu apartamento.

No sé si fui yo o fuiste tú quien se sintió más sólo,

Quien dijo que el porno había sido nuestro refugio y nuestra compañía porque creó en nosotros la ilusión de experimentar al menos visualmente las cosas, de encontrar un espacio donde ser felices de nuevo.

Nos desnudamos y estuvimos contemplando la ciudad, sin tocarnos.

En los escaparates de los bazares chinos las cámaras de vigilancia debían registrar el paso de los últimos bañistas.

Pero la cristalera de nuestra terraza no se registró la presencia de ningún sentimiento.

Me acerqué a tu pelo y respiré. Te susurré: Finge que me amas.

Guardaste silencio durante mucho rato, tal vez porque ni siquiera sabíamos con certeza qué era eso del amor.

Nuestras vidas las vivíamos demasiado velozmente.

Nuestras emociones sólo eran emociones cuando disfrutábamos de la superficie de las cosas.

Nuestra ternura sólo era algo parecido a la ternura cuando comprendíamos la leve intensidad con que se mostraba el mundo.

Un avión dejaba un rastro acrílico al fondo del estampado de las bragas que la brisa movía en el tendedero.

Acaricié tus nalgas y dejé que mis dedos se perdieran entre los pliegues de tu ano y de tu vagina.

En ningún momento miré tu rostro, ni siquiera quise pronunciar tu nombre.

En ningún momento me preocupó quién eras ni como la vida nos había llevado hasta allí.

Éramos dos seres a los que envolvía el espectáculo de su propio deseo.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s