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Imagem: La ville des pirates. Raúl Ruiz

 

Julio Mas Alcaraz. El niño que bebió agua de brújula. Calambur, 2011

 

TIEMPO 3

I

la soledad y la sed qué voz es esa parecen tus pasos todo puede ser real o quizá como una espera en un sueño o en un aprendizaje no deberías preguntarte qué ocurrió es lo eterno a veces

no veo la huida ni el otro destino ni el otro cielo no es una idea de ti sino de tu habitación y su espacio en uno de tus cajones he descubierto arrancadas las páginas finales de muchos

libros


III

Al despertar, el yo niño muerto. Tiene quemaduras y ampollas en sus dedos. Lo recojo en mis brazos, las piernas juntas en mis manos, su cuello hacia atrás.

No logró aprender a respirar las violentas luces de madrugada que entran por la ventana.

V

Insiste.

Imagina si no existiese

y, por tanto, no hubiera

el Vértigo

de la caída que no acaba.

VI

El ser retraído sobre sí.

el dolor más agudo y lento busca el recuerdo introduce descansa vuelve a meter mi cabeza en el cubo de agua salada el peso en el cuello el anfiteatro cercado por ángeles que ellos empalan inunda llena mis pulmones intentar levantarse otra vez caer una asfixia que no termina la sal quema en las sienes en la nuca los no nacidos la asfixia repetida sobre mí que el yo no esté que no esté no

La conciencia le arrastra hacia su propio abismo.

XI

Arranca las cerraduras y sangran sus manos.

En la memoria es un niño y su padre le escupe. Cuando nadie le ve.

XIII

Les he visto pinchar con un alfiler los ojos diminutos, negros y esféricos, de las aves.

Les he visto tragarlos y luego dejarlas volar.

XIV

Llevan los vientos

alaridos de huérfanos,

gritos de mujeres violadas.

Su brisa mueve

las vestiduras blancas de las vírgenes

en procesión.

Hilos de sangre caen de entre sus piernas.

XVII

Bajar a las profundidades don no siento ni recuerdo el frío salir la dulzura de la caída más suave y última las paredes se inclinan con mi respiración

Cierra los ojos.

Con las manos cansadas

de un mimo, el

silencio


Tempo 3

I

a solidão e a sede que voz é essa. parecem os teus passos

tudo pode ser real ou quiçá como uma espera num sonho ou numa aprendizagem não deverias perguntar-te o que aconteceu é o eterno às vezes

não vejo a fugida nem o outro destino nem o outro céu não é uma

ideia de ti senão do teu quarto e o seu espaço numa das tuas gavetas descobri arrancadas as páginas finais de muitos livros

III

Ao acordar, o eu menino morto. Tem queimaduras e bolhas nos seus dedos. Recolho-o nos meus braços, as pernas juntas nas minhas mãos, o seu pescoço para trás.

Não conseguiu aprender a respirar as violentas luzes de madrugada que entram pela janela.

V
Insiste.

Imagina se não existisse

e, assim, não houvesse

a Vertigem

da queda que não acaba.

VI

O ser retraído sobre si.

a dor mais aguda e lenta procura a recordação introduz descansa volta a meter a minha cabeça no balde de água salgada o peso no pescoço o anfiteatro rodeado por anjos que eles empalam inunda enche os meus pulmões tentar erguer-se outra vez cair uma asfixia que não acaba o sal queima nas têmporas na nuca os não nascidos a asfixia repetida sobre mim que o eu não esteja que não esteja não

A consciência arrasta-a para o seu próprio abismo.

XI
Arranca as fechaduras e sangram as suas mãos.

Na memória é um menino e o seu pai cospe-lhe. Quando ninguém olha.

XIII

Já os vi picar com um alfinete os olhos diminutos, pretos e esféricos, das aves.

Já os vi a engoli-los e depois deixá-las voar.

XIV

Levam os ventos

alaridos de órfãos,

gritos de mulheres violadas.

A sua brisa agita

as vestes brancas das virgens

em procissão.

Fios de sangue caem de entre as suas pernas.

XVII

Descer às profundidades onde não sinto nem lembro o frio sair a doçura da queda mais suave e última as paredes inclinam-se com a minha respiração

Fecha os olhos.

Com as mãos cansadas

de um mimo, o

silêncio

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