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Imagem: Wong Kar-Wai, 2046

Rui Costa. Mike Tyson para principiantes Antologia poética. Assírio & Alvim, 2017


TEORIA LIRICA

(policial)

1. La edad correcta para casarse es él con 34 anos y ella con 27. Sobre todo en un tren como éste, que no para en ninguna estación o apeadero.

2. De repente un enorme campo de arroz, un hombre y una mujer. El hombre agarra la mujer como un apero agrícola. Una pequeña pala tal vez, o un objeto más suave que no sufre con la fuerza de la mano.

3. Admitiendo que el tren no avanza con el piloto automático, un tercer elemento existe: el conductor. Es él quien ahora sale de su cabina con un bolígrafo en la mano.

4. En el campo de arroz, la mujer encarga una estación favorable abriendo mucho las piernas. Esta vez no siente placer, no quiere, le pasa tan solo una vez por año. Es una mujer feliz.

5. El tren prosigue, solo, sobre la inmensa recta del país llano.

El conductor del tren ve a la mujer al fondo del pasillo y escribe: veo la mujer al fondo del pasillo y escribo; no sé si la amo, es la primera mujer que veo en toda mi vida.

6. La imagen siguiente es la de una cabeza apoyada en la mesa, sobre los brazos, el cabello castaño tapándole los ojos.

7. Esa noche el conductor del tren observa: el campo inundado, visiones blancas y algo mates como figuras proyectadas a través de una hoja transparente.

8. Ninguna alerta llegó o atisbo de investigación. El tren para allí; las cuatro manos morenas interrumpen el trabajo y miran.

9. En la ventana del tren los dos, apenas los dos.

10. Ningún crimen, ningún dolor, ningún recuerdo. Qué mejor forma para comenzar.


TEORIA LIRICA

(policial)

1. A idade certa para casar é ele com 34 anos e ela com 27. Sobretudo num comboio como este, que não pára em nenhuma estação ou apeadeiro.

2. De repente um enorme campo de arroz, um homem e uma mulher. O homem segura a mulher como um utensílio agrícola. Uma pequena pá talvez, ou um objecto mais suave que não sofre com a força da mão.

3. Admitindo que o comboio não avança em piloto automático, um terceiro elemento existe: o condutor. É ele quem sai agora da sua cabine com uma caneta na mão.

4. No campo de arroz, a mulher encomenda uma estação favorável abrindo muito as pernas. Desta vez não sente prazer, não quer, acontece-lhe apenas uma vez por ano. É uma mulher feliz.

5. O comboio prossegue, sozinho, sobre a imensa recta do país plano.

O condutor do comboio vê a mulher ao fundo do corredor e escreve: vejo a mulher ao fundo do corredor e escrevo; não sei se a amo, é a primeira mulher que vejo em toda a vida.

6. A imagem seguinte é a de uma cabeça deitada na mesa, sobre os braços, o cabelo castanho tapando-lhe os olhos.

7. Nessa noite o condutor do comboio vê: o campo alagado, visões brancas e algo baças como figuras projectadas através de uma folha transparente.

8. Nenhum alerta veio ou sinal de inquérito. O comboio pára ali; as quatro mãos morenas interrompem o trabalho e olham.

9. Na janela do comboio os dois, apenas os dois.

10. Nenhum crime, nenhuma dor, nenhuma lembrança. Que melhor podes ter para começar.

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