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José Kozer

 

MI PADRE, QUE ESTÁ VIVO TODAVÍA

 

Mi padre, que está vivo todavía,

no lo veo, y sé que se ha achicado,

tiene una familia de hermanos calcinados 

          en Polonia,

 

nunca los vio, se enteró de la muerte de su

          madre por telegrama,

 

no heredó de su padre ni siquiera un botón,

 

que sé yo si heredó su carácter.

 

Mi padre, que fue sastre y comunista,

 

mi padre que no hablaba y se sentó a la

          terraza,

 

a no creer en Dios,

 

a no querer más nada con los hombres,

 

huraño contra Hitler, huraño contra Stalin,

 

mi padre que una vez al año empinaba una

          copa de whisky,

 

mi padre sentado en el manzano de un

          vecino comiéndole

          las frutas,

 

el día que entraron los rojos a su pueblo,

 

y pusieron a mi abuelo a danzar como a un

         oso el día sábado,

 

y le hacían prender un cigarrillo y fumárselo

          en un día sábado,

 

y mi padre se fue de la aldea para siempre,

 

se fue refunfuñando para siempre contra la

          revolución de octubre,

 

recalcando para siempre que Trotsky era un

          iluso y Beria un criminal,

 

abominando de los libros se sentó chiquitico

          en la terraza,

 

y me decía que los sueños del hombre no son

          más que una falsa

          literatura,

 

que los libros de historia mienten porque el

          papel lo aguanta todo.

 

Mi padre que era sastre y comunista.


O MEU PAI, QUE AÍNDA ESTÁ VIVO

 

 

O meu pai, que aínda está vivo,

 

non o vexo, e sei que minguou,

 

ten unha familia de irmáns calcinados

          en Polonia,

 

nunca os viu, soubo da morte da súa

         nai por telegrama,

 

non herdou do seu pai nin sequera un botón,

 

que sei eu se herdou o seu carácter.

 

O meu pai, que foi xastre e comunista,

 

o meu pai que non falaba e sentou

         na terraza,

 

a non crer en Deus,

 

a non querer máis nada cos homes,

 

rabudo contra Hitler, rabudo contra Stalin,

 

o meu pai que unha vez no ano empinaba unha

         copa de whisky,

 

o meu pai sentado na maceira dun

         veciño a comerlle

         as froitas,

 

o día que entraron os roxos no seu pobo,

 

e puxeron o meu avó a danzar como un

         oso o día sábado,

 

e facíanlle prender un pito e fumalo

         nun día sábado,

 

e o meu pai marchou da aldea para sempre,

 

marchou refungando para sempre contra a

         revolución de outubro,

 

recalcando para sempre que Trotsky era un

         iluso e Beria un criminal,

 

abominando dos libros sentou cativiño

         na terraza,

 

e diciame que os soños do home non son

         máis que falsa

         literatura,

 

que os libros de historia menten porque o

         papel o atura todo.

 

O meu pai que era xastre e comunista.


MEU PAI, QUE AINDA ESTÁ VIVO

 

 

Meu pai, que ainda está vivo,

 

não o vejo, e sei que se apequenou,

 

tem uma família de irmãos calcinados

          na Polônia,

 

nunca os viu, se inteirou da morte de sua

          mãe por telegrama,

 

não herdou de seu pai nem sequer um botão,

 

que sei eu se herdou seu caráter.

 

Meu pai, que foi alfaiate e comunista,

 

meu pai que não falava e se sentou no

          terraço,

 

a não crer em Deus,

 

a não querer mais nada com os homens,

 

áspero contra Hitler, áspero contra Stalin,

 

meu pai que uma vez ao ano emborcava um

          copo de uísque,

 

meu pai sentado na macieira de um

          vizinho comendo

          as frutas,

 

e o dia que entraram os vermelhos em seu povoado,

 

e puseram meu avô para dançar como um

          urso no dia de sábado,

 

e lhe faziam acender um cigarro e fumá-lo

          em um dia de sábado,

 

e meu pai se foi da aldeia para sempre,

 

se foi resmungando para sempre contra a

          revolução de outubro,

 

repisando para sempre que Trotsky era um

          iludido e Beria um criminoso,

 

maldizendo os livros se sentou pequenininho

          no terraço,

 

e me dizia que os sonhos do homem não são

          mais que uma falsa

          literatura,

 

que os livros de história mentem porque o

           papel aceita tudo.

 

Meu pai que era alfaiate e comunista.

 


 

 

Tradución ao galego de Xosé María Álvarez Cáccamo

Tradução para português de Ronald Polito

 

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