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Imagem Hélder Ventura

Nina Rizzi. Geografia dos ossos. (Douda correria, 2015)

pastoral da ribeira

 

uma casinha incendiada surge no prédio ao lado

o rio cobre as vigas e pedras e cimento e pó

sob o rio se eriçam casas-lama os homens prontos e um emprego

trilhos e pregos e gente balouçam na casinha incendiada ao lado

 

afunda os pés de brincar co’ ua nanã que ri o ferro que afunda largo

um afogamento pronto pra uma cidade que nasce com seus homens

fortes na peneira a colher demora a massa e mofa e demora a massa

o fogão de barro submerso no lugar que nasce

acena um oi para a gente que vem incendiada

arde o fogo e a água a pedra e ferro da gente que vem

olha pra a direita        mais adiante

folhas de palmeira pra palhoça um pouquinho de amianto

entulho e câncer e as cabritinhas tão bonitinhas ó as galinhas

cisca cisca cisca

ôôôôôôôôôôô

camisas numeradas regatas largas e de manguinhas

uma cidade emerge submersa

uma ponte metálica de madeira uma ponte

escaiada caiada com luzinhas pra piscar e muda muda

olha a novacor de dez em dez segundos

 

um conjunto habitacional popular há quase cem quilômetros

da gente que levanta e nasce uma cidade submersa

sete prediozinhos de três andares pra amontoar a gente

saída de uma favela onde se gritar um estádio de futebol

 

ôôôôôôôôôôô

 

uma cidade surge submersa no prédio ao lado

é tanta gente é tanta gente e tudo que sente e faz a gente

 

incendeia, amor

 

incendeia

 


pastoral de la ribera

 

una casita incendiada surge en el edificio de al lado

el río cubre las vigas y piedras y polvo y cemento

bajo el río se erizan lodo-casas los hombres preparados y un empleo

raíles y clavos y gentes se balancean en la casita incendiada al lado

 

hunde los pies de brincar como una nana que ríe el hierro que se hunde a lo ancho

un ahogamiento preparado para una ciudad que nace con sus hombres

fuertes en el cedazo la cuchara demora la masa y enmohece y demora la masa

el fogón de barro sumergido en el lugar que nace

masculla un ey para la gente que viene incendiada

arde el fuego y el agua piedra y hierro de la gente que viene

mira a la derecha        más adelante

hojas de palmera para cabaña un poco de amianto

escombro y cáncer y las cabritillas tan bonitas oh las gallinas

 

hoza hoza hoza

 

ohohohohohohohohohohoh

 

flojas camisetas numeradas de asas y de manga corta

una ciudad emerge sumergida

un puente metálico de madera un puente

encalado calado con lucecitas parpadeantes y muda muda

mira el tornasol cada diez segundos

 

un bloque de viviendas de protección oficial hace casi cien quilómetros

de la gente que levanta y nace una cuidad sumergida

siete inmueblecitos de tres alturas para amontonar a la gente

salida de una favela donde si gritase un estadio de fútbol

 

ohohohohohohohohohohoh

 

una ciudad surge sumergida en el edificio de al lado

es tanta la gente es tanta la gente y todo lo que siente y hace la gente

 

incendia, amor

 

incendia

 

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