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Imagem: Sharunas bartas

António Franco Alexandre

Poemas (Assírio & Alvim, 1996)

Relatório um

a) alguns factos da nossa vida exigem uma teoria
que os confunda: assim estas coisas simples à transparência
se tornam invisíveis, se deixam percorrer
numa prematura infâmia. não são excessivas as
palavras que a percorrem, como dentro da infância
os vestidos cor de água, as ágatas, a luz azul dos ogres.
                                           don’t worry, we’re safe
nos guardam: o grande imperador do pico de leste;
a senhora que torna o céu sereno;
os deuses das muralhas & dos fossos.
depois estremecemos ao olhar os toldos,
                                           she wants the young american
era um linho muito brando. estes
são os factos, e uma linha de fogos incessantes.
porisso se justificam igualmente
as inundações, a pestilência. não tem havido tempo
onde encostar o peso das aves. a exaltação,
&, depois a necessidade destes juízos,
vêm de uma face longínqua que protege
o olhar, imperícia.
aos factos juntarei agora a permanência
de um pavor indeciso, deito-me num corpo,
espalho na boca as sementes, o vidro, e ainda assim
acordo sem boca. as paredes, os toldos, e a desolação
dos animais absortos na brancura,
o meu país das Naus, de esquadras & de frotas
tudo se conjuga numa pequena caixa de latão
onde escondeste uma renúncia: quase descolorida,
este libro está dedicado a la historia actual, a la política.
Considera el pasado
                                 unicamente como una introducción al porvenir
porisso certamente as naves, o seu cheiro de erva
quando ardem as velas,
                                       & o rumor azul
dos pássaros na água.
este é um país de razões surdas, de vagas
transparências, e depois despedimo-nos
com os telefones imóveis, opacos, oblíquos, os ombros
telescópicos, & esse desejo torpe de ocultar-te.
ao pavor
ficarei devendo o auxílio, exactamente, oculto.
alguma face cai na água, no meio das velas, um rumor
exacto: este o enigma, as paredes absortas.
as janelas douradas onde espalhas
a vasta lentidão do sofrimento.
                                           lembro-me
de te ter hesitado, algum horror imóvel
ao sangue, ao hálito das luzes.
dedico-me
                 à história actual, a política,
ao desatar dos nomes, a oblíqua precessão
dos telefones. estes são os factos, e a sua indecisão
não me permite recusá-los
considere-se esta realidade imóvel unicamente
como uma introdução
                                    ao movimento
incessante das águas.
recuso-me a acrescentar a indicação das senhas.

 

b) o que caracteriza a situação é a dialéctica
minuciosa da exaltação & dos nomes.
esta define um primeiro sector de avanços & renúncias.
algumas noites o ciúme devora a insensatez
destas caixas secretas, e é muito tarde que te invento.
ficarei exausto dentro da tua voz. então
é necessário variar as dunas,
percorrer com decisão as ruas devastadas,
exigir um poder sem complacência.
tudo isto ignora a tua desolação, a minha
breve repugnância. mas essa
é a lei em que nos transformamos
à medida que as águas avançam.

 

c) só com a actividade revolucionária é que a transformação de si
coincide com a transformação das coisas
e a transformação das coisas é, talvez, o lugar
de uma coincidência obscura
reunindo a transparência.
aceito a pele, a água, a leve repugnância
do teu suor imóvel, sei
que os teus ombros se apagam na nudez.
assim nasce o pavor. o futuro saberá
lentamente adiar o que sofremos, as naves,
o teu olhar dourado nas janelas.
trocaremos de sonhos, de lugares, de
lágrimas. tão leves os teus dias me inventaram.
esta é, sem dúvida, a teoria sem a qual
pereceremos juntos.

 

d) alguns outros factos deliberadamente ocultos
se opõem a uma descrição exaustiva. uma vez
decidido o início, é fácil realizá-lo
no excesso das palavras. de dentro da brancura
soam as vagas que nos justificam, quando
& como se torna necessário.
dedico-me unicamente
                          a uma cólera incessante,
este horror da tua transparência
desaparecerá, como as mais coisas que as palavras
tornaram invisíveis.
o céu será, então, torpemente sereno sobre as naves,
os fossos inundados, a muralha.
estes, camaradas, são os factos. dez de julho, lisboa.

 

 

Refs.: D. Hockney; D. Bowie; A. Nobre; Trotsky, La revolución desfigurada, trad., Madrid 1929, A ideologia Alemã.


Informe uno

a) algunos hechos de nuestra vida exigen una teoría
que los confunda: así estas cosas sencillas a la transparencia
se vuelven invisibles, se dejan recorrer
en una prematura infamia. no son excesivas las
palabras que la recorren, como dentro de la infancia
los vestidos color de agua, las ágatas, la luz azul de los ogros.
                                                don’t worry, we’re safe
nos guardan: el gran emperador del pico del este;
la señora que vuelve el cielo sereno;
los dioses de las murallas & los fosos.
después estremecemos al ver los toldos,
                                                she wants the young american
era un lino muy blando. estos
son los hechos, y una línea de fuegos incesantes.
por eso se justifican igualmente
las inundaciones, la pestilencia. no ha habido tiempo
donde reposar el peso de las aves. la exaltación,
&, después la necesidad de estos juicios,
vienen de una faz remota que protege
la mirada, impericia.
a los hechos sumaré ahora la permanencia
de un pavor indeciso, me tiendo en un cuerpo,
esparzo en la boca las semillas, el vidrio, y aún así
despierto sin boca. las paredes, los toldos, y la desolación
de los animales absortos en la blancura,
mi país de las Naves, de escuadras & de flotas
todo se conjuga en una pequeña caja de latón
donde escondiste una renuncia: casi descolorida,
este libro está dedicado a la historia actual, a la política.
Considera el pasado
únicamente como una introducción al porvenir*
por eso ciertamente las naves, su olor a hierba

cuando arden las velas,
                                       & el rumor azul
de los pájaros en el agua.
este es un país de razones sordas, de vagas
transparencias, y después nos despedimos
con los teléfonos inmóviles, opacos, oblicuos, los hombros
telescópicos, & ese deseo torpe de ocultarte.
con el pavor
quedaré en deuda de auxilio, exactamente, oculto.
algún rostro cae en el agua, en el medio de las velas, un rumor
exacto: este el enigma, las paredes absortas.
las ventanas doradas donde esparces
la vasta lentitud del sufrimiento.
                                                  recuerdo
haber titubeado, algún horror inmóvil
a la sangre, al hálito de las luces.
me dedico
                 a la historia actual, la política,
al despliegue de los nombres, la oblicua precesión
de los teléfonos. estos son los hechos, y su indecisión
no me permite negarlos
considérese esta realidad inmóvil únicamente
como una introducción
                                    al movimiento
incesante de las aguas.
me niego a añadir las indicaciones de las señales.

 

b) lo que caracteriza la situación es la dialéctica
minuciosa de la exaltación & de los nombres.
ésta define un primer sector de avances & renuncias.
algunas noches el celo devora la insensatez
de estas cajas secretas, y es muy tarde ya que te invento.
permaneceré exhausto dentro de tu voz. entonces
es necesario variar las dunas,
recorrer con decisión las calles devastadas,
exigir un poder sin complacencia.
todo esto ignora tu desolación, mi
breve repugnancia. pero esa
es la ley en que nos transformamos
a medida que las aguas avanzan.

 

c) sólo con la actividad revolucionaria es que la transformación propia
coincide con la transformación de las cosas
y la transformación de las cosas es, tal vez, el lugar
de una coincidencia oscura
reuniendo la transparencia.
acepto la piel, el agua, la leve repugnancia
de tu sudor inmóvil, sé
que tus hombros se borran en la desnudez.
así nace el pavor. el futuro sabrá
lentamente posponer lo que sufrimos, las naves,
tu mirada dorada en las ventanas.
cambiaremos de sueños, de lugares, de
lágrimas. tan leves tus días me inventaron.
esta es, sin duda, la teoría sin la cual
pereceremos juntos.

 

d) algunos otros hechos deliberadamente ocultos
se oponen a una descripción exhaustiva. una vez
decidido el comienzo, es fácil realizarlo
en el exceso de las palabras. de dentro de la blancura
suenan las olas que nos justifican, cuando
& como se vuelve necesario.
me dedico únicamente
                          a una cólera incesante,
este horror de tu transparencia
desaparecerá, como la mayoría de las cosas que las palabras
volvieron invisibles.
el cielo será, entonces, torpemente sereno sobre las naves,
los fosos inundados, la muralla.
estos, camaradas, son los hechos. diez de julio, lisboa.

 

 

Refs.: D. Hockney; D. Bowie; A. Nobre; Trotsky, La revolución desfigurada, trad., Madrid 1929, A ideologia Alemã.


* en castellano en el original

 

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