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Imagem: Bill Viola

Miguel Manso. Persianas (Tinta da China, 2015)

Campéstico, paisagens e interiores

 

6

infuso difuso quotidiano

espargido há muito pelos poros dos anos
seus clarões e noitadas
sulfatados sobre o interior e o exterior
do ente

que eu é o eu diante deste facto?
doente no interior e exterior de si e como
ser-se o quê aquém do ergon
assumido nocturnamente no deslustro
dos enredos?

nem tudo o que vem ao enredo

é

 

34


perfará mais uma volta ao Sol
o letargo secreto desta cozinha
junto com a multidão exterior que galopa
sem saber no dorso do planeta

tudo está ao mesmo tempo quieto e roda
pelo vazio a 30 Km por segundo
como circundando um ralo antes de sumir
pelo infinito abaixo

sobre o mármore da bancada o vaso
da orquídea está de frente para o inexplicável
e sem tremeluzir invade o instante sujo
pelo incerto Om do frigorífico

feito para terminar é o momento puro
ápice tão inconcebível como a eternidade
ambos se defendem fora do tempo numerável
(este temporal de onde escrevo)

e vão aonde o pensamento não chega
e só imaginando se demora a ir de um lado
a outro do infindo

ou até à mesa onde deixei os óculos
com que verei melhor o representado
menos bem o constante atilho que tem isto
a que chamamos cegamente vida

 

43


plantamos a roseira sem saber
a cor que terá junto a vedação a que vai
embaraçar os espinhos

veio envolta no lacre de que despegará folha
por folha pelo decreto primaveril

o mesmo que comanda os humores
da buganvília que havia já na maltratada paleta
do jardim

do cacto explodiram como foguetes
flores laranja colossais

e os olhos da amada como abelhas poisam
em tudo e de tudo se espaventam

eu sou o abelhão pesado que ao fim do dia
procura um recanto entre o xisto
para se abrigar do orvalho da madrugada
e não encontra melhor lugar que no corpo quente
da amada

 

52


saio de casa do claustro feudal
do texto

deixo o tal como é do mundo
a prótese do hábito que apequena
quando não sei
destapar o panorama -ama
e faz o que quiseres

não sairei daqui pelo próprio
pé tão-pouco o eu se conservará
em mim há outra arquitectura

é não-euclidiana e de dimensão
fractal

um pormenor semântico
integral cuja morte não impedirá
que siga serena a dança

atravesso a casca num surto de orto
gráfica pantomima
(lês?)
as cortinas do último quarto hesitam
no hálito da tarde

ora são o manto do Buda ora a túnica
de Cristo

esqueço-me do habitat
das prateleiras azuis da jarra
de barro pintado
(recordação de Aregos – louça de Massarelos)
a cómoda que foi de uma avó
a caixa onde ardem os pivetes

guardo o baralho das cinquenta e duas

cartas com que não joguei poker

 

sento-me no que primeiro esqueci

e no doloso sofá

 


6

infuso difuso cotidiano

esparcido hace mucho por los poros de los años
sus nocturnidades y alboradas
sulfatados sobre el interior y el exterior
del ente

¿qué yo es el yo delante de este hecho?
doliente en el interior y exterior de sí y ¿cómo
serse el qué acá del ergon
asumido nocturnamente en el deslustro
de las tramas?

no todo lo que viene a la trama

es

 

34


consumará una vuelta más al Sol
el letargo secreto de esta cocina
junto con la multitud exterior que galopa
sin saber en el dorso del planeta

todo está al mismo tiempo quieto y rueda
por el vacío a 30 Km por segundo
como circundando un desagüe antes de sumirse
por el infinito abajo

sobre el mármol de la encimera la maceta
de la orquídea está de cara a lo inexplicable
y sin rutilar invade el instante ensuciado
por el incierto Om del frigorífico

hecho para terminar es el momento puro
ápice tan inconcebible como la eternidad
ambos se defienden fuera del tiempo numerable
(este temporal de donde escribo)

y van adonde el pensamiento no llega
y solo imaginando se demora en ir de un lado
a otro del infinito

o hasta la mesa donde dejé las gafas
con las que veré mejor lo representado
no tan bien el constante lazo que tiene esto
a lo que llamamos ciegamente vida

 

43


plantamos el rosal sin saber
el color que tendrá junto a la cerca en que va
a enmarañar las espinas

vino envuelto en lacre del que se despegará hoja
por hoja por el decreto primaveral

el mismo que comanda los humores
de la buganvilla que había ya en la maltratada paleta
del jardín
del cactus explotaron como centellas
flores naranjas colosales

y los ojos de la amada como abejas se posan
en todo y de todo se espantan

yo soy el abejorro pesado que al final del día
busca un recoveco entre el granito
para abrigarse del rocío de la madrugada
y no encuentra mejor lugar que el cuerpo cálido
de la amada

 

52


salgo de casa del claustro feudal
del texto

dejo el tal como es del mundo
la prótesis del hábito que empequeñece
cuando no sé
destapar el panorama -ama
y haz lo que quieras

no saldré de aquí por el propio
pie tampoco el yo se conservará
en mí hay otra arquitectura

es no-euclidiana y de dimensión
fractal

un detalle semántico
integral cuya muerte no impedirá
que siga serena la danza

atravieso la cáscara en un brote de orto
gráfica pantomima
(¿lees?)
las cortinas del último cuarto vacilan
en el aliento de la tarde

ya son el manto de Buda ya la túnica
de Cristo

me olvido del hábitat
de los estantes azules de la jarra
de barro pintado
(recuerdos de Aregos – loza de Massarelos)
la cómoda que fue de una abuela
la caja donde arde el incienso
guardo la baraja de cincuenta y dos
cartas con que no aposté al póker

me siento en lo que primero olvidé
y en el doloso sofá

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