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Imagem: Ralph Eugene

Manuel Cintra

Bicho de sede. (Ulmeiro, 1984)

III-OVOS?

 

gostava de correr à minha frente de repente
durante um desses dias em que corro atrás de mim
e mandar-me parar largar as solas os sapatos
o comboio o ordenado o horário apertado, parar
sentar-me como se sentam esses velhos
coxos sobre um banco cerca do meio dia
e desembrulham a bucha começam a comer isso
tudo e também a luz do sol
com as duas mãos e as outras todas

respirar aquilo que quase nunca já
me entra pelos poros das narinas
nem por outros espalhados pelos passos
corridos mais depressa do que eu ando
a perder no tempo em que corro e pouco sinto
aquele em que me não sento
nem quando bebo o tão café tão curto
distante desse sorvo amargo que não cabe
em barcos ocos quanto mais em chávenas
mas corro sempre corro tudo corro como
se o tempo e o recheio estivessem encanados
num longo corredor, e a saída
que não deve estar no fundo
me passasse sempre ao lado
e eu ao lado dela
lançando a mão segundos tarde
demais para a reter
por isso corro tento espero
parar um dia no momento certo
atirar para a minha frente as duas mãos
e sobretudo as outras todas direito
ao cheiro que não sinto já no sol

talvez demore muito esteja velho e coxo
na mão ainda o embrulho a fome a bucha
ou mesmo o apetite sobre o banco cerca
do meio dia


III-HUEVOS?

 

quisiera correr a mi frente de repente
durante uno de esos días en que corro tras de mí
y mandarme parar deshacerme de suelas de zapatos
del tren del salario del horario atropellado, parar
sentarme como se sientan esos viejos
cojos en un banco cerca del mediodía
y desenvuelven un tentempié y comienzan a comer eso
todo y también la luz del sol
con las dos manos y las otras todas

respirar aquello que casi nunca ya
me entra por los poros de la nariz
ni por otros esparcidos por los pasos
dados más veloz de lo que ando
perdiendo el tempo en que corro y poco siento
aquel en que no asiento
ni cuando bebo el tan café tan corto
distante de ese sorbo amargo que no cabe
en barcos huecos cuanto menos en pocillos
pero corro siempre corro todo corro como
si el tiempo y el relleno estuviesen canalizados
en un largo corredor, y la salida
que no debe estar al fondo
me pasase siempre al lado
y  yo al lado de ella
lanzando la mano segundos tarde
de más para retenerla
por eso corro intento espero
parar un día en el momento cierto
lanzar a mi frente las dos manos
y especialmente las otras todas directo
al olor que no siento ya en el sol

tal vez tarde mucho sea ya viejo y cojo
en la mano aún el envoltorio el hambre el tentempié
o incluso el apetito sobre el banco cerca
del mediodía

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